Olha, confesso que quando cheguei em Grenoble pensei: ‘Nossa!
Não deveria ter deixado minha mãe colocar tantas roupas de frio na minha mala! Agora
não tenho roupa pro calor que está fazendo aqui e ainda carreguei um peso
inútil a viagem inteira!’
Nesse momento da minha vida, queria dar um tapa na cara da
Aline do passado! Jamais pense que a sua mãe está errada! Sua mãe, não importa
sobre qual assunto, ela sempre terá razão! De fato, você não consegue entender
a lógica por trás das atitudes dela. Mas o fato é que ela tem uma espécie de
dom que a torna capaz de antever situações que você jamais pensou ser possível!
No meu caso por exemplo, aqui em la rochelle está fazendo um
frio danado agora. E ainda não deu tempo de comprar roupas de frio. Ou seja,
estou usando as que eu tenho na mala e não passei frio em nenhum instante aqui.
Então, caro leitor, se um dia a sua mãe te disser qualquer
coisa, mesmo que por dúvida você hesite, SEMPRE OBEDEÇA A SUA MÃE!
O causo é o seguinte: eis que estávamos na praia aqui em La
Rochelle e, já sabe, né? Um monte de estrangeiro, a francesada aproveitando o
finalzinho do verão, blá blá blá...
Nesses ambientes, a gente acaba conhecendo ou
conversando com pessoas novas... E numa dessas, não sei por que... Um amigo
meu, aqui de La Rochelle, o Alexandre (nome fictício para preservar sua
identidade) começou a falar com umas criancinhas que estavam lá na praia. No
fim das contas, quando eles estavam se despedindo, o Alexandre soltou a pérola:
‘mon petit ami! Au revoir!’ O problema é que ‘petit ami’ em francês quer dizer ‘namorado’
mas o Alexandre não sabia... Ele quis dizer ‘meu pequeno amigo’... Mas não deu muito certo...
Ninguém percebeu, eu acho... E a gente zuou ele demais!
Acredito que todo mundo que já ouviu falar da França conhece
essa frase; que se tornou praticamente um sinônimo de educação, de polidez...
Mas essa frase não me marcou pelas vezes em que eu me
esqueci de utilizá-la, o que praticamente se transformou em motivo de
reclamação de alguns franceses. Essa frase me marcou por um episódio que
aconteceu no primeiro dia de aula aqui em La Rochelle.
Seguinte: todos os alunos estrangeiros estavam no anfiteatro.
Ou seja, sala grande e cheia de gente. Logo, é complicado fazer a galera ficar
em silêncio... E para piorar, a gente tinha acabado de chegar do intervalo...
Daí, uma senhora (não vou citar nomes!), com
toda a sua educação... Mandou um ‘s’il vous plaît’ bem baixinho... Mas óbvio, a
maioria nem ouviu nada! Percebendo que seria difícil contornar aquela situação,
ela não hesitou e gritou freneticamente: ‘S’IL VOUS PLAÎT!’
A sala inteira calou-se de repente. Tamanho foi o susto com
o grito. Na hora ninguém zuou, ninguém riu, ninguém fez nada... Todo mundo
começou a prestar atenção na mulher... a ‘s’il vous plaît’, como ficou
conhecida entre os brasileiros.
Não sei se consegui deixar bem claro o quão bizarra foi a
situação. Tipo, estamos na universidade! Ela gritou como se a gente estivesse
na pré-escola! Foi estranho...
Sei que é quase uma falta de educação ficar muito tempo sem
escrever por aqui! Esse blog é uma das formas das pessoas que eu mais amo nesse
mundo acompanhar de perto as histórias da minha estadia aqui na França.
Mas... Vocês vão me desculpar! Começaram as festas de
integração da EIGSI! #TodosComemora
">
Ou seja, está tendo festa todo dia da semana! Então... Estou um
pouco sem tempo! Mas depois coloco a conversa em dia! #Prometo
É a minha última noite em grenoble, e me encontro aqui...
Deitada na cama, com meu edredon e com esse moreno quentinho... Sim! Meu
notebook, caro leitor!!!
Pois é... Serei a última a deixar Grenoble. Sabe aquele
corredor aqui do segundo andar da résidence Hector Berlioz? Que na semana
passada estava lotado de brasileiros??? Pois é... agora só tem uma... eu!
E é no mínimo doloroso ver todos os seus amigos partindo.
Não que eu esteja triste com isso, pelo contrário! Todo mundo batalhou muito
para estar aqui: na França! Agora iremos para segunda etapa do percurso: a
parte mais longa e mais trabalhosa, eu creio! Cada um estará em cidade
diferente, e depois de quatro anos de convivência, a gente vai se separar.
Vivemos muitas coisas nesses anos... Passamos muito sufoco
juntos, rimos muito! Foram horas e horas de estudos, conversas, zuera! É por
isso que sinto esse aperto no coração... Durante esse tempo, nós estivemos tão
próximos... E agora, a gente vai se separar! Mas como me disse uma amiga:
‘distância é uma palavra que não existe!’
Quero que saibam que sempre guardarei vocês comigo! E boa
sorte para a gente nesse ano! ^^
Depois de vários posts sobre a França, chega a hora de mudar
de assunto! É por isso que o blog hoje vai falar de outra coisa: amor, caros
leitores! Ownnnnn
Na verdade não é sobre o amor propriamente dito e sim sobre
uma música que fala de amor. Trata-se de uma canção dos Los Hermanos, ‘Conversa
de botas batidas’. E não se sinta mal se você nunca a ouviu, ela não é muito
conhecida!
Devo confessar que na primeira vez que eu ouvi essa música
não entendi bem a letra. Algumas passagens me pareceram realmente confusas naquele momento: ‘Deixa o
moço bater que eu cansei da nossa fuga, já não vejo motivos pra um amor de
tantas rugas, não ter o seu lugar’.
Isso eu só fui entender quando eu soube da história que inspirou
Marcelo Camelo a compor essa canção. O fato é que em 2002, um prédio de um
hotel desabou no centro do Rio de Janeiro. O porteiro ouviu uns estalos e saiu batendo de
porta em porta, avisando as pessoas do risco de desabamento. No início,
acreditou-se que esse acidente não deixou vítimas mas após certo tempo foram encontrados os corpos de um casal de idosos entre
os escombros.
Descobriu-se que esse casal se encontrava frequentemente no
hotel e eram casados, mas não um com o outro: eles mantinham um relacionamento
extraconjugal há vários anos. Marcelo Camelo se inspirou nessa história e
escreveu a música ‘Conversa de botas batidas’ simulando um diálogo com as últimas palavras do casal.
Se eles viveram um romance e desistiram de se esconder para
morrer um ao lado do outro, se eles quiseram se esconder, se eles estavam
simplesmente dormindo, ninguém sabe! Para mim, o único fato incontestável é que
Marcelo Camelo se superou nessa letra!
No Brasil, eu sempre me achei tão educada. Sabe, a ponto de
causar admiração nos meus professores do prezinho a faculdade.
Mas aqui na França, eu me sinto muito chucra, a mais grossa
das criaturas! Sei lá, me esforço mas simplesmente não consigo ser ‘polida’!
Não sei se é porque eu tenho que pensar muito para falar. Eu fico arquitetando
o que eu tenho que dizer, tentando formular as frases em francês na minha mente
e me esqueço do começo... Eu acabo me esquecendo do fundamental, do ‘Pardon monsieur!
Excuse-moi! Je voudrais savoir blá blá blá...’ Ahhhhh é muita coisa!!! No
Brasil é mais descomplicado! É só pedir uma licença, perguntar o que você quer
saber e dizer um muito obrigada e pronto!
Eu simplesmente não consigo fazer direito o ritual que é
pedir informação na rua...
E na despedida é a mesma coisa! Para você ter uma idéia, quando
eu fui comprar umas passagens com uma amiga, a moça do guichê disse: ‘Merci!
Bonne journée! Bon Voyage! Au revoir!’ Quatro! Quatro! Ela disse quatro coisas
para se despedir... É muito para a minha cabeça! Estou me esforçando mas
olha... Tá difícil...